Uma reflexão sobre Felicidade e as relações humanas

Quanto custa ser feliz?

Quanto custa ser feliz?

Menos coisas, menos televisão, menos internet, menos produção e publicidade, e um maior e continuado investimento em relações humanas.

A felicidade também se aprende; não nascemos com ela. Se assim não fosse, não saberíamos falar dela. Mas o que sobre ela se diz, não será mais que um testemunho que se vai passando de geração em geração; no fundo, uma questão infinitamente longe de se tornar um estado de graça em si, ou uma meta definitivamente alcançada.

Mas há mais. Ao contrário do que dizia, por estes dias, o advogado Medina Carreira, a felicidade não tem apenas a ver com cada um, ou com o que alguém individualmente possa gostar e ter como fonte de prazer.

Ao assentar sobre um existir vazio de essências, a interdependência humana revela sobretudo que a felicidade não é nem pode reduzir-se a uma mera subjectividade. Se não somos auto-suficientes, a felicidade nunca poderá pensar-se sem os outros. Por isso, ela não poderá resultar de uma relação de alguém com si mesmo, mas de uma relação com um outro. E será este encontro o que arranca a felicidade de uma exclusiva subjectividade e lhe confere maior genuinidade, ou o que podíamos chamar de verdade, ainda que convencional ou relativa.

Importante ainda esclarecer que o outro, aqui, é pessoa. Numa economia de mercado, como a nossa, os seres humanos são frequentemente substituídos por coisas, acabando até por ser, entre infinitas ofertas, objectos de consumo. Se a vulnerabilidade e o sofrimento são experiências que a economia de mercado, procura neutralizar e evitar, então, numa procura de felicidade, as coisas, e entre elas os próprios animais de estimação, são a oferta imediata que torna disponível diversos níveis de bem-estar com total imunidade. De facto, a matéria, quer em bruto ou transformada, não nos interroga, nada exige, nunca se aborrece ou alegra connosco. Mas o mesmo já não acontece com o ser humano. E certamente por isso, numa total subjectivização da felicidade, a fraternidade se evite, por ser simultaneamente interrogação e dádiva inestimável. Mas o que estudos recentes trazem uma vez mais de volta às nossas consciências, contra a negação da fragilidade, como condição humana, é que o nível de felicidade provocado pelos consumíveis é efémero e fugaz, como errónea e infeliz é a felicidade que se deseja pela aposta na auto-suficiência ou na menor dependência de uns sobre os outros.

Neste actual estado de colapso financeiro e de gravosa recessão económica insiste-se na importância e urgência do crescimento económico. As perspectivas não são animadoras para Portugal. Na verdade, os analistas prevêem que Portugal, em 2012, seja o único país da União Europeia ainda em crise, com uma taxa de desemprego altíssima e sem crescimento económico.

Serve certamente à felicidade alguma riqueza; não se pode ser feliz na pobreza, entendida esta como privação de bens e serviços de primeira necessidade. Mas a necessidade de produzir maior riqueza e de com ela se proceder a uma mais justa distribuição da mesma, não pode significar viver nos excessos de nós mesmos, pois estes não são necessários à felicidade. Se o caminho para a felicidade está na alegre e tranquila aceitação da nossa própria vulnerabilidade e de com ela nos vivermos em reciprocidade, criando fraternidade, então o crescimento económico deverá significar um menor consumo de coisas e um maior investimento nas relações humanas.

Habituámo-nos, quem mais quem menos, a viver com o que frequentemente não nos é necessário. E adquirimos o que não nos é fundamental, como frequentemente o essencial é exclusivamente segundo os nosso olhos e não segundo o olhar também dos outros.

O salário mínimo nacional e o próprio rendimento social de inserção são uma tentativa colectiva de suprir o corpo e a vida com um sistema que lhes permita funcionar, com saúde e dignidade. Mas não posso deixar de denunciar, diante dos seus actuais valores, a sua insuficiência. A felicidade precisa de mínimos maiores, que não empurrem os sorrisos de ninguém para a indigência. As crianças poderão sorrir, cantar e correr de alegria em inúmeros bairros de lata, mas o bidonville não constrói a felicidade de ninguém, ainda que Roberto Benigni agradeça à sua mãe a pobreza. E se mínimos dignos e justos se exigem a todo o crescimento económico, também ao mesmo se exigem máximos dignos e justos. A partir do momento que a felicidade se mede sobretudo pela qualidade das relações humanas, e não pela quantidade de coisas, ou pelo seu excesso, o dinheiro e a sua multiplicação passaram a ser importantes, mas apenas no serviço ao que é de facto fundamental: o ser humano, sem excepção.

 

2011-04-14 em Congressos